Depois do relato de um pai surpreendido com a aprovação do filho mesmo com notas baixas, professores enviaram diversas histórias semelhantes. SEED nega que haja pressão para aprovar
Um puxão de orelhas depois que vários de seus alunos apresentaram nota abaixo da média e a pressão para que fossem recuperadas de qualquer forma foi um dos primeiros choques de uma professora com a profissão. Trabalhando há poucos anos na rede estadual de educação do Paraná, ela relatou que o “empurrãozinho” para que alunos não reprovem é comum e motivo para desapontamento dela e também razão para que alunos não tenham nenhum compromisso com a escola.
O depoimento da professora, dado nesta quinta-feira (7), ocorreu um dia depois que a TV Coroados mostrou a revolta de um pai de dois alunos de Londrina que apresentaram nota baixa durante todo o ano letivo da rede estadual, mas foram aprovados pelo conselho de classe. A notícia repercutiu por todo o estado. Inúmeros e-mails e comentários de professores, pais e até alunos relatando histórias semelhantes chegaram até a redação do Jornal de Londrina. As mensagens alegam, em sua maioria, que existe pressão da Secretaria Estadual de Educação (Seed) para aprovação do maior número possível de alunos. A secretária de Educação, Yvelise Arco-Verde, nega que haja tal determinação.
Ajuda de final de ano
A professora que conversou com o JL por telefone ainda narrou estratégias que ocorrem nos bastidores das escolas para evitar que alunos reprovem. Segundo ela, é comum que professores anotem notas e o controle de presença a lápis para futuras modificações. “Muitos mudam a nota de acordo com a pressão ou para dar uma ajudinha no final de ano. Eu mesmo mudei as minhas notas no segundo bimestre depois que me chamaram a atenção no primeiro bimestre”, contou.
Esse comportamento dos professores, conta ela, reflete nos alunos. “Eles não tem mais nenhum comprometimento com as aulas. Não fazem provas, não entregam trabalhos e, quando a aula é de noite, ninguém aparece por causa do futebol na televisão. Na sexta-feira nem tem aula, porque todo mundo vai pra balada”, conta. Para a professora, o motivo é o simples fato da certeza de aprovação no final de ano. “Tem que se esforçar muito para reprovar hoje em dia”, ironiza. “O amor pela missão de educar vai acabando aos poucos e a gente acaba só indo mesmo porque tem contas para pagar no final do mês. Hoje não existe nenhuma recompensa em ser professor”, lamentou.
Assim como essa professora ouvida, os e-mails recebidos refletem a mesma situação. Uma outra professora, que também não quis ser identificada, lembrou que a aprovação está ligada também ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que avalia a educação no país e define as verbas que a união repassa para cada estado. “As aprovações ocorrem sim, mas tem um sentido: a verba para a escola. Quanto mais são aprovados mais verba, isto é, ninguém é obrigado a aprovar alunos, mas se no ano seguinte faltar papel higiênico no banheiro dos professores você poderá ser culpado”, escreveu.
Outros relatam que ouviram diretores pressionando. “Um diretor me chamou e disse que na escola dele não se reprovava aluno”. Outra relatou que precisou arrumar “notas independentemente das médias, mexer no livro, podendo alterar todos os bimestres...”. Há também quem tenta ser diferente, mas acaba acompanhando a mesma pressão. “Sofro com meu trabalho jogado no lixo, quando percebo meus colegas passando alunos que brincaram o ano todo e com receio de pais que ameaçam irem ao núcleo abrir um processo administrativo”.
Conselho de classe
Nesta quinta-feira (7), reportagem do Paraná TV 2ª Edição levou ao ar uma gravação de uma reunião de conselho de classe na qual mostra o diretor de uma escola afirmando que é possível aprovar alunos com notas baixas em várias matérias. “Até três disciplinas o aluno passaria. Vocês (professores) arrumariam nos livros de chamadas”. Ele afirma ainda que se o aluno apresentasse notas baixas em quatro matérias seria possível que seguisse para a próxima série após uma discussão. Com cinco matérias estaria reprovado.
fonte: TANACIDADE / por Fernando Araújo






0 comentários:
Postar um comentário
Comente no Acessai